"A arte deve antes de tudo e em primeiro lugar embelezar a vida, portanto, fazer com que nós próprios nos tornemos suportáveis e, se possível, agradáveis uns aos outros: com essa tarefa em vista, ela nos modera e nos refreia, cria formas de trato, vincula aos não educados as leis de convivência, de limpeza, de cortesia, de falar, de calar a tempo certo." Nietzsche

Bernard Shaw


George Braque


Carl Sagan


Mário Quintana


Nietzsche


Nietzsche


Rheticus


Karl Jaspers - A filosofia no mundo




Mas como se põe o mundo em relação com a filosofia? Há cátedras de filosofia nas universidades. Atualmente, representam uma posição embaraçosa. Por força da tradição, a filosofia é polidamente respeitada, mas, no fundo, objeto de desprezo. A opinião corrente é a de que a filosofia nada tem a dizer e carece de qualquer utilidade prática. É nomeada em público, mas - existirá realmente? Sua existência se prova, quando menos, pelas medidas de defesa a que dá lugar.
A oposição se traduz em fórmulas como: a filosofia é demasiado complexa; não a compreendo; está além de meu alcance; não tenho vocação para ela; e, portanto, não me diz respeito. Ora, isso equivale a dizer: é inútil o interesse pelas questões fundamentais da vida; cabe abster-se de pensar no plano geral para mergulhar, através de trabalho consciencioso, num capítulo qualquer de atividade prática ou intelectual; quanto ao resto, bastará ter “opiniões” e contentar-se com elas.
A polêmica torna-se encarniçada. Um instinto vital, ignorado de si mesmo, odeia a filosofia. Ela é perigosa. Se eu a compreendesse, teria de alterar minha vida. Adquiriria outro estado de espírito, veria as coisas a uma claridade insólita, teria de rever meus juízos. Melhor é não pensar filosoficamente.

E surgem os detratores, que desejam substituir a obsoleta filosofia por algo de novo e totalmente diverso. Ela é desprezada como produto final e mendaz de uma teologia falida. A insensatez das proposições dos filósofos é ironizada. E a filosofia vê-se denunciada como instrumento servil de poderes políticos e outros.

Muitos políticos vêem facilitado seu nefasto trabalho pela ausência da filosofia. Massas e funcionários são mais fáceis de manipular quando não pensam, mas tão-somente usam de uma inteligência de rebanho. É preciso impedir que os homens se tornem sensatos. Mais vale, portanto, que a filosofia seja vista como algo entediante. Oxalá desaparecessem as cátedras de filosofia. Quanto mais vaidades se ensinem, menos estarão os homens arriscados a se deixar tocar pela luz da filosofia.
Assim, a filosofia se vê rodeada de inimigos, a maioria dos quais não tem consciência dessa condição. A autocomplacência burguesa, os convencionalismos, o hábito de considerar o bem-estar material como razão suficiente de vida, o hábito de só apreciar a ciência em função de sua utilidade técnica, o ilimitado desejo de poder, a bonomia dos políticos, o fanatismo das ideologias, a aspiração a um nome literário - tudo isto proclama a anti-filosofia. E os homens não o percebem porque não se dão conta do que estão fazendo. E permanecem inconscientes de que a anti-filosofia é uma filosofia, embora pervertida, que, se aprofundada, engendraria sua própria aniquilação.
O problema crucial é o seguinte: a filosofia aspira à verdade total, que o mundo não quer. A filosofia é, portanto, perturbadora da paz.
E a verdade o que será? A filosofia busca a verdade nas múltiplas significações do ser-verdadeiro segundo os modos do abrangente. Busca, mas não possui o significado e substância da verdade única. Para nós, a verdade não é estática e definitiva, mas movimento incessante, que penetra no infinito.
No mundo, a verdade está em conflito perpétuo. A filosofia leva esse conflito ao extremo, porém o despe de violência. Em suas relações com tudo quanto existe, o filósofo vê a verdade revelar-se a seus olhos, graças ao intercâmbio com outros pensadores e ao processo que o torna transparente a si mesmo.
Quem se dedica à filosofia põe-se à procura do homem, escuta o que ele diz, observa o que ele faz e se interessa por sua palavra e ação, desejoso de partilhar, com seus concidadãos, do destino comum da humanidade.
Eis por que a filosofia não se transforma em credo. Está em contínua pugna consigo mesma.



(Karl Jaspers, Introdução ao pensamento filosófico, p. 138.)



Deleuze

"Quando a sensação visual enfrenta a força invisível que a condiciona, então ela libera uma força que pode vencer esta, ou fazer dela uma amiga. A vida grita para a morte, mas justamente a morte não é mais aquele traço demasiado visível que nos faz fraquejar, ela é essa força invisível que a vida detecta, desaloja e faz ver gritando. É do ponto de vista da  vida que a morte é julgada, e não o inverso, onde nós nos comprazíamos. Bacon faz parte desses autores que podem falar em nome de uma vida mais intensa, por uma vida mais intensa. Não é mais um pintor que ‘acredita’ na morte. Todo um miserabilismo figurativo, mas a serviço de uma Figura da vida cada vez mais forte. Elevou Figuras indomáveis, indomáveis por sua insistência, por suapresença, no momento mesmo em que ‘representava’ o horrível, a mutilação, a prótese, a queda ou o fracassado. Deu à vida um novo poder de rir extremamente direto.”
Gilles Deleuze (1981).
Francis Bacon: lógica da sensação
 Retrato de Inocêncio X, Papa
Francis Bacon

Bertrand Russell




"Digamos, para dar um exemplo, que os pais de um jovem tenham para si que a teoria da evolução é abominável. Em um caso como esse, só é preciso a inteligência para entrar em desacordo com eles. Não estar em harmonia com o próprio ambiente é uma desgraça, concordo, mas não é sempre que uma desgraça precisa ser evitada a todo custo. Quando o ambiente é estúpido, cheio de preconceitos ou cruel, não estarmos em harmonia com ele é um mérito."
Bertrand Russell em A Conquista da Felicidade

Umberto Eco


Sócrates


Na gravura, Xantipa, esposa de Sócrates, despeja água suja no ateniense que, armado com paciência responde: "Não há dúvida de que, após o trovão veio a chuva".

Erasmo de Rotterdam


São necessários homens altos e robustos que reflitam pouco e avancem. Por acaso, haver-se- ia de preferir esse Demóstenes soldado que, seguindo os sábios conselhos de Arquíloco*, jogou para longe seu escudo para dar-se à fuga, logo que percebeu a presença do inimigo? Era tão negligente no combate quanto sábio na tribuna.
[...] A nobre guerra é feita por parasitas, alcoviteiros, ladrões, sicários, boçais, imbecis, devedores, insolventes, em resumo, pelo refugo da sociedade e, de modo algum, por filósofos que velam a luz da lamparina.

*Os espartanos baniram Arquíloco por haver confessado e se gabado de ter largado o escudo para fugir com maior destreza e mais depressa. O orador Demóstenes teria feito o mesmo em outra batalha. 
 
Citado em Elogio da Loucura de Erasmo de Rotterdam

Mário Quintana


Mário Quintana

                                   

Novalis


Luciano de Samosata


Trecho de Os Fugitivos

"Zeus - Ainda não me disseste, ó Filosofia, as ofensas que sofreste, mas apenas te lamentaste.
A Filosofia - Ouve, ó Zeus, quais são. Uma raça de vagabundos, na maioria servos e mercadores, que não viveram comigo desde crianças por causa das suas ocupações[...]
O vulgo que vê isso despreza a filosofia, crê que todos são da mesma laia, e acusam a mim, que dou bons preceitos. Por isso tem-me sido impossível há muito tempo atrair alguém a mim, e me acontece como a Penélope, que tudo o que teci, num momento se desfaz: e a Ignorância e a Injustiça riem de mim, vendo que faço uma obra que nunca se realiza, e uma fadiga inútil."

Luciano de Samosata