"A arte deve antes de tudo e em primeiro lugar embelezar a vida, portanto, fazer com que nós próprios nos tornemos suportáveis e, se possível, agradáveis uns aos outros: com essa tarefa em vista, ela nos modera e nos refreia, cria formas de trato, vincula aos não educados as leis de convivência, de limpeza, de cortesia, de falar, de calar a tempo certo." Nietzsche

Amadeu Amaral


" Os poetas gozam, decididamente, de um conceito bem pouco favorável nessa bela e forte sociedade brasileira. Às vezes, às muitas desventuras que os acabrunham junta-se mais esta: o serem uns indivíduos suspeitos e o viverem premiados pelo desprezo honesto dos que se ocupam de coisas sérias.
O povo emprestou à palavra 'poeta'  um significado pejorativo bem próximo do que assume na gíria o vocábulo 'tipo'. Tipo quer dizer 'pobre diabo', e 'poeta' diz pouco mais ou menos que isso. 'Poeta' serve também de vocábulo depreciativo como 'coisa'. 'Ó seu poeta!' é uma exclamação equivalente desta outra: 'Ó seu coisa!'
[...] Mais admiráveis, mais nobres e mais dignos. A poesia é a florescência radiosa e divina da espiritualidade. É a mais fina e melindrosa expressão da vida intelectual, não direi a mais alta, porém, com certeza, a mais bela. E, com ser tão fina e tão melindrosa, é também uma força.
Tem a sua razão de ser na sua própria existência de produto humano. É vária, profunda, contraditória e enigmática como a própria vida. Resume em si todos os encantos, desde os encantos mais sutis e fugitivos dos sentidos até os encantos ásperos e sangrentos da luta. É voo de pássaro e é relâmpago, é luar e é oceano, é suspiro e é trovão, é aragem perfumosa e é vendaval destruidor. Derrama em torno de si as mais suaves consolações, bálsamos de rosas e de poeira de estrelas; ampara os oprimidos, flagela os tiranos, embala as criancinhas no berço, rasga no prosaísmo caliginoso da existência luminosas abertas para o ideal. É ao fremente ressoar da sua lira eterna que as gerações se encaminham para o Canaã das esperanças humanas. É quando se desfazem e morrem as nações, quando tudo que as engrandecia e orgulhava desapareceu para sempre, é ainda ela, a excelsa Poesia, que recolhe e guarda a alma do povo extinto na âmbula dourada dos seus poemas.
Poetas, amai com religioso fervor a vossa arte, a misteriosa, a augusta, a criadora e benfazeja Poesia! Entoai-lhe, com a unção de que sois capazes, o Salve-Rainha do vosso culto afetuoso e grave."


Amadeu Amaral, 1902,  em O Elogio da Mediocridade